Histórico de Consultorias - Mãos de Juara, Serra/ES.

D'us te abençoe!



Iniciou-se este módulo, pedindo a cada um dos 20 integrantes, que contasse sua história. Induzia-os a contarem no que dormiam, no que comiam, como era a casa, de que material, piso, a fim de fazer uma leitura cultural material. 


Percebemos que, a medida em que se lembravam das coisas, e viam que anotávamos tudo com muito entusiasmo, a confiança deles foi aumentando, o gelo foi se quebrando e começaram a se abrir e a contarem detalhes de suas vidas sem se sentirem diminuídos ou envergonhados.

Foi de uma riqueza enorme, pois descobrimos uma senhora que sabe fiar, a partir do algodão tirado do pé. Contou que sempre fora muito pobre, filha de vaqueiro, andando de um lugar para outro, por isso nunca pode estudar. Porém que sempre desejara aprender a fazer crochet e um dia conseguiu, mas se deparou com outro problema: não havia dinheiro para agulhas e linhas. Então, de um arame grosso, fez a agulha, e a partir de uma roca simples, fez o fio, que retirava dos campos de algodão. Pedimos que trouxesse este apetrecho para darmos uma olhada, e no dia seguinte, trouxe não só a roca, como o algodão in natura, ainda preso no galhinho da planta, com o fio tecido que dera início, para mostrar.

Descobrimos que no passado, usavam a Paina da Taboa para encherem os travesseiros , que era macia e não deformava. Descobrimos pessoas que sabem fazer brolhas e bijouterias. 


Todas essas informações, foram usadas para o desenvolvimento dos produtos, mais tarde.

Neste dia pedimos que ao retornarem para casa, fossem calmamente observando pelo caminho, quais árvores, quais sementes, quais flores, serviriam para representar a cidade. Incentivamos a conversarem com conhecidos, vizinhos, pessoas, moradores antigos do local para contarem histórias acerca do município, de como era a paisagem, etc.

No dia seguinte, trouxeram-nos uma enorme quantidade de sementes, fotos, madeiras, trabalhos que desenvolviam.

Neste dia, perguntamos a eles a cerca do conhecimento histórico da cidade, dos lugares turísticos, do patrimônio histórico, fauna flora, etc.

Todos sabiam alguma coisa, e além do Patrimônio Histórico e da Arquitetura, encontramos nos recursos naturais, como na flora,e na própria cultura do povo ( o seu saber, fazer ) a resposta.

As sementes de Pau Brasil, Girico,e Flaboyant, são abundantes na região, resolvemos usá-las para marcar a identificação do núcleo. Também decidimos por usar a Paina da Taboa, que é macia e não deforma. Sugerimos que as almofadas fossem enchidas por este material. Se divulgássemos num tag, de como no passado usavam esse material para enxerem travesseiros e colchões, teríamos nesse fator um forte identificador, pois é provável que não encontremos almofadas com esse material no mercado.

Neste período, foram convidados pelo SEBRAEES, para participarem com seus produtos, da Casa Cor, e ninguém queria fazer. Pedíamos os produtos e não confeccionavam, designava tarefas, e não cumpriam.

Então, num dos módulos, perguntamos um por um: O que é a Casa Cor? 

Respostas: “Uma casa colorida onde vende artesanato”, “Uma casa onde se estoca artesanato para as pessoas fazerem os pedidos”, etc

Ninguém sabia, nunca haviam ouvido falar. Dezesseis pessoas numa sala. E todos possuem T.V 

Ao analisarmos as instalações do núcleo, que caracterizamos como ruins, sem o mínimo de condições, pois o local se resume em um caramanchão com uma cobertura improvisada por 1 plástico preto, exposto á poeira, vento, chuva e um banheiro em péssimas condições de uso; fica fácil percebermos o universo dessas pessoas. Como criar num espaço desses? Que referências possuem para criarem produtos que atendam as necessidades e perfis de uma casa cor? Como quebrar essa percepção de meio social, e desenvolver outras, para que suas atitudes sejam mudadas? 

Então mostramos as revistas Casa Cor Brasil, desde 1999, a fim de obterem alguma referencia. Fui dando uma aula de design, mostrando cores, orientando de como as cores neutras ficam bem em todos ambientes, assim, mais fácil vender, mostrando o nível dos ambientes, que iriam compor os produtos que desenvolviam, enfim puderam vislumbrar um outro mundo, do qual de uma certa maneira iriam começar a fazerem parte, através de transações comerciais.

As mesas para refeições que conhecem, são de madeira, usando para forrar, uma toalha de tecido. Então chamamos a atenção para o tamanho das mesas que compunham esses ambientes, para os materiais, como eram o “forro” das mesmas, como o jogo americano era popular e comum, portanto de fácil aceitação no comercio...

Poucos alcançaram o objetivo de vislumbre deste universo, a grande maioria preferiu o conforto de suas velhas crenças, valores e opiniões, e traduziram essa atitude, se comportando de maneira “do contra”, trabalhando para minar a oficina, na tentativa de desencorajar os que acreditaram e se entusiasmaram. 

O grupo acabou por se dividir em dois: os que tiveram suas atitudes modificadas, e que a cada nova informação os seus olhos brilhavam mais, e que portanto alcançaram o objetivo da oficina, e os o que não entraram nesse processo, por não abrirem mão de suas convicções, comportando-se de maneira descrente. Neste caso, denominaremos o primeiro grupo de G.1e o segundo de G.2, somente como referência.

Interessante que, o G.1, que desenvolvia todas as tarefas, que confeccionava todos os produtos, começou a ter outro olhar a respeito de seu próprio espaço, sem nossa interferência. Uma delas, reclamou das condições do banheiro com o proprietário, e argumentou se ele deixaria sua esposa usá-lo. Que eram pobres, porém limpas e dignas, e que mereciam um mínimo de respeito, etc. Através desta atitude, percebe-se a transformação do olhar do indivíduo, um sinal da educação que a oficina, estava produzindo.

Neste momento da oficina, receberam uma encomenda de 3000 pares de alça para sacolas de embalagem, o que resultaria em R$ 2400,00.

Este fato constituiu-se, numa entrada para falar de associativismo, de cooperativismo, como forma de organização do trabalho, e divisões dos papeis sociais. De que seria horizontal e não teria uma hierarquia. Que a pessoa que entra no brejo para cortar a taboa, como a que trança, tanto a que vai para a casa cor vender os produtos, ganharão o mesmo, e ninguém é melhor ou mais importante que o outro. Falamos numa linguagem de forma a compreenderem, que a medida em que trabalhavam para essa realidade social, diferente dos moldes hierárquicos capitalistas, construiriam também novos indivíduos, mais críticos, mais comprometidos, mais conscientes, onde a competição daria lugar à cooperação , e o sucesso do núcleo, seria o sucesso de todos os componentes.

Paralelo a esse fato, acontecia também uma cobrança da parte do grupo G.1, por melhores instalações, materiais para a confecção dos produtos, promessas que o “Instituto Aldeias”, havia feito para os integrantes, que ao saber da encomenda e do valor que o núcleo viria à receber, quis usar esse valor para a construção de novas instalações. Esse novo fato, causou nova divisão, pois o Grupo G.1, era a favor de saírem deste local e com o dinheiro da venda das alças, construírem em outro lugar, e o G.2, de permanecerem. 

Reflexos dos anos de colonização a que o povo brasileiro foi submetido. Preferem acreditar em promessas, terem um patrão, do que serem independentes, e construírem uma nova identidade, uma nova sociedade.

Após terem recebido o dinheiro, dividiram –no entre si. Não foram para a casa cor, pois o “Instituto” disse que não estavam preparados para isso. Na verdade, queriam fazer um estatuto interno, cobrando 20% das vendas do grupo. A história se repetindo: exploração de miseráveis.

Á essa altura, havia chegado o momento de decidirmos o que produzir. Fizemos um grande círculo, usando a técnica de “tempestade de idéias”, cada um foi dando sua opinião. Optou-se pela produção de utilitários.

Uma preocupação foi formar coleções, fazer com que tudo combine com tudo : o jogo americano com o porta-copos, com o porta-guardanapos, com a almofada; nas formas, nas sementes, para que com esse procedimento, aumente as vendas.

Uma idéia então surgiu: usar a técnica já empregada na elaboração de esteiras, feitas com a taboa de fios grossos, em novas funções. Assim, uma linha de jogos americanos, porta-copos, porta-guardanapos, foram criados, feita com um fio de 0,5cm de taboa, sementes e como acabamento, brolhas.

A partir da técnica que usavam para fazer tapetes, reduziu-se o tamanho e desenvolveu-se “rodinhas”, de 3 cm de diâmetro, e quadrados de 4X4cm, que unidos ás sementes, possibilitou a elaboração de vários objetos: cintos, brincos, colares, porta-copos, porta guardanapos, sousplat, almofadas, jogos americanos.

O grupo G.2, se separou do G.1, que se organizou novamente, em Jacareípe e já receberam o apoio do Sebrae, com novas consultorias.